domingo, outubro 29, 2006

Um Amor Infinito...

O que aqui deixo(traduz bem aquilo que senti) é da autoria da minha amiga e colega Vanessa Pantaleão que comigo vivenciou a experiencia do que é passar pela Pediatria do IPO...
"“Finalmente penetrou na minha cabeça dura. Esta vida – este momento – não é um ensaio geral. É a própria vida!”F.knebel.
Por mais anos que se preencha embrenhado em letras soltas, nada nos ensina mais que a própria vida. Até aqui nenhuma novidade, pelo menos para alguns, eu é que teimo em espantar-me cada vez que diagnostico novas asas, dentro deste sempre voo.E desta, a regra manteve-se, pois para excepção já me chega – existir.Escolhi como mote a vida, não como ensaio geral, mas como peça de instantes perenes. Principalmente porque sinto que seguimos adiando viver tal como desejamos, correndo o risco de nos esquecemos de o fazer!Era ainda bem cedo quando escolhemos o quadrado 7, o elevador cumprindo o seu trabalho embalou-nos ate lá e foi num silêncio a três vozes, que entramos. Em nós, apenas uma certeza, Instituto Português de Oncologia, piso 7, Pediatria.Naquela noite tudo me tinha passado pela cabeça, antes de acordar para aquele mundo, tinham-me dado sumariamente os (poucos) conhecimentos clínicos do que nos esperava, tinham tido a “delicadeza” de me alertar que ali era demasiado diferente... tinha tudo menos a realidade.A Maria, porque todas as meninas cabem neste nome, tinha um sorriso sereno, gostava de pintar, e de cor-de-rosa (como todas a flores). Aquele era o seu mundo há já algum tempo, pertencia-lhe, era o palco onde crescia cada dia mais, onde tinha muitas das pessoas que faziam parte da sua história, onde aprendera a ser feliz. Um dia disse-nos que estava cansada, que tinha saudades de correr, de sentir o mar e de ver pássaros diferentes dos aviões, e teve alta. Num outro dia voltou para se despedir. Tenho bem presente o momento...“ Já não tenho medo de morrer!” Aquele quarto deixou o peso do silêncio, para abraçar a paz da realidade.É de amor ....é de histórias de amor que se vive no IPO. Do amor de criar, do amor de cuidar, do amor de viver.Lembro-me de no primeiro dia uma frase me ter trespassado. “Aqui temos de estar com as crianças quando chegam, sem sabermos muito bem o que lhes espera, estamos com elas aquando o diagnóstico, permanecemosdurante o tratamento, continuamos com elas quando vão para casa ou quando partem e muitas das vezes continuam connosco mesmo depois de partirem.”Em cada um dos quartos há mil sonhos a cumprir, são crianças, são mundos novos a cada dia que por si só são histórias intermináveis. E são vidas iguais a tantas outras que acompanham essas histórias. Com uma diferença, nós escolhemos estar ali, eles “foram escolhidos”...Resta-me agradecer, às pessoas que todos os dias pressionam o quadrado 7 e não deixam descolorir nenhuma historia, nenhuma vida...Às histórias que passaram também a fazer parte da minha. Aos meninos que me tem contaminado, a cada lagrima, a cada gargalhada, em todos os gestos com esse Amor Infinito... Á Maria – que hajam muitos pássaros diferentes de aviões, para onde quer que tenhas voado!Obrigada...
P.s: Porque todas as princesas são eternas...até sempre!"
Obrigada por vocês terem feito parte =) Não me canso de ler e de recordar....
Muitas beijocas
Joaninha

2 comentários:

Beta disse...

Palavras lindissimas...afinal nao podiam ser menos quando se reportam a situações de vida e de amor tao lindas também!!!
Infelizmente ha muitas Marias que partem, eu tive a infelicidade tb de contactar com muitas, embora noutra realidade!!!
Mas considero que deve ser extremamente dificil a pediatria no IPO, contudo acho que seria ao mesmo tempo exgtremamente alciante e recompensador!!!
;)

Que a vida de todos seja repleta deste tipo de amor.... seria muito bom sinal!! Que o mundo nao estaria como está!!

Beijinhos

Óbelix disse...

Mantenham essa entrega à profissão. Aliás, como costumo dizer, trabalhar na saúde não é emprego, é missão!!! É entrega....

Das coisas que mais me marcaram enquanto profissional, foi uma colega enfermeira de uma certa unidade de Cuidados Intensivos pediátricos, ligar-me a meio de uma bela manha a perguntar-me onde era o cemitério de S. Pedro de Sintra.... Eu lá lhe expliquei e perguntei-lhe quem tinha falecido... Ela disse "-O joão (porque todos os nomes cabem em joão)...

-Mas quem é o João? - perguntei eu
-Uma criança que esteve na unidade e faleceu onteontem.....

Saberemos nós reconhecer a grandeza, o poder dos nossos pequenos gestos para todos os que tentamos ajudar?

bjs e abraços